A nudez e a opinião pública

extaseUma bela mulher sai nua de um lago. É mais uma cena do filme Êxtase, uma coprodução Tchecoslováquia/Áustria, do diretor Gustav Machatý, onde ocorre o primeiro nu frontal do cinema, há quase 80 anos. Mas do voluptuoso corpo da atriz Hedy Lamarr para o midiático mundo em que vivemos já se vão quase oito décadas. Mesmo assim, o nu não perdeu o impacto que ainda causa em muitas pessoas.
O naturismo é tratado com, óbvio, naturalidade pelos adeptos. Revistas ditas masculinas vendem milhares de exemplares e arrecadam outros tantos milhares em reais. Aquela imagem do filme preto-e-branco fosse veiculada hoje, não seria nada. Uma imagem veiculada recentemente, já é o contrário. Uma não, várias. Foram destaques na TV, rádio, jornal impresso. E principalmente na internet, que derruba fronteiras geográficas e onde sonhos de muitos homens e mulheres se tornam realidade.A cobertura jornalística realizada pela “Vênus platinada” sobre o caso das fotos “proibidas” de uma atriz “da casa” mexeu com a opinião pública. Vítima (?) de si própria, a personalidade permitiu que crackers expusessem aos quatro ventos (?) da web, situações de alguém que, mesmo se exibindo pela profissão, não eram para ser vistas. A privacidade de cada indivíduo deve ser mantida. É caso do ditado “a casa de um homem é lugar sagrado”. No caso, “as fotos de uma atriz que resolveu se clicar despida e também ser clicada são sagradas”. Ou não?
Como dissemos anteriormente, o bombardeio, sobretudo televisivo, do assunto foi destaque em vários telejornais. Enquanto isso, a notícia da grávida que foi atropelada e morta não vi na televisão. Mas ela é flamenguista. Sim, a atriz é flamenguista. Mas qual o time da mãe que não pode gerar o filho e deixou uma avó sem neto, esse ninguém sabe. A garota que teria sido estuprada com a conivência da mãe também não recebeu tanto destaque. Mas a atriz tem bonitos bichinhos de pelúcia. A mulher que ficou com a arma na cabeça durante tentativa de assalto, essa rapidamente é esquecida. A fantasia de mulher-maravilha da atriz é, na verdade, a roupa de centenas de milhares de brasileiras que se aventuram na rua, no trabalho, todos os dias. Ah, mas ter fotos desse tipo sendo descarregadas em centenas de computadores é como “ter uma faca no próprio peito”. A mãe que perdeu o filho para o crack se sente assim?
Não quero ler ou ver notícias sensacionalistas ou somente de tragédias, mas alguém ouviu falar de um aluno que chegou sem saber ler corretamente ao quarto ano, teve o desenho escolhido como um dos mais bonitos em concurso nacional? Ou que uma aluna foi primeiro lugar ao escrever sobre o planeta nesse mesmo concurso? Vocês viram isso?
Enquanto não vejo pautas desse tipo sendo produzidas, vou olhar para uma imagem em preto-e-branco, embalada por uma trilha sonora bem orquestrada, em um filme que o título diz tudo: êxtase. Mais do que as fotos rondando pela infovia.

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