A “linha vermelha”

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Uol Imagens

Na lápide lia-se “morto por passarela ao passar sob ou sobre ela”. Sabemos que não será esse o epitáfio, mas a inimaginável situação aconteceu, como praticamente todas as emissoras, jornais e sites passaram o dia de ontem comentando. A imprudência de um motorista de caçamba – que falava ao celular -, causou dor, espanto e revolta. A dor na vida dos familiares das cinco vítimas fatais não vai passar. O espanto como o do pai que viu o filho cair e de outros motoristas, que viram a trágica cena, vai ser lembrado por muito tempo. A revolta, ah, essa revolta não é de hoje e, temos certeza que ainda nos revoltaremos muitas outras vezes. Como tantos outros casos, uma sequência de erros culmina em fatídicas manchetes.
Somos o país em que a falta de fiscalização matou 242 pessoas dentro de boate; vitimou outras dezenas em acidentes aéreos, rodoviários e fluviais; levou centenas ao óbito, em descasos com a saúde pública; marginaliza adolescentes com falta de investimentos educacionais; tirou a vida de pais, mães, filhos; coloca criminosos para responder em liberdade.
No dia de anteontem (28/01), a “Linha Amarela”, no Rio de Janeiro, ficou tingida com o nome de outra via expressa carioca. Vermelha.

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Bestialidade ou imbecilidade?

ImagemAinda não sei definir a covardia fria e insana das ações exibidas em rede nacional e que mostraram a crueldade dos canalhas que atacaram os ônibus em São Luís, no MA. O prejuízo material ficou para os endinheirados empresários do setor, mas a dor dilacerante dos que perderam uma criança de seis anos ou das vítimas que lutam pela vida permanece. A pequena Ana Clara não teve tempo de descer quando os bandidos atearam fogo ao ônibus. O entregador de frangos, Márcio da Cruz, não teve tempo de pensar e, por impulso, tentou salvar heroicamente a criança.
A culpa de tamanha revolta que comove a nação, assim como em tantos outros crimes bárbaros – Isabella Nardoni, Joaquim Ponte, por exemplo -, pode ser atribuída a uma legislação penal arcaica e a inoperância do sistema carcerário. Poderíamos citar a ignobilidade de alguns parlamentares ou a carência dos órgãos de segurança pública, bem como a falida estrutura educacional e a desmoralização de conceitos familiares em detrimento de espetáculos de caráter duvidoso e muitos proveitosos para a mídia.
Tantas são as razões para o nojo do que vemos que nem parecemos uma nação, na qual milhares de pessoas fizeram ecoar o grito de melhorias para o país que sediará uma copa do mundo, enquanto tetos de hospitais desabam ou ruas são tomadas pela água.
A violência desenfreada que toma conta de todos os cantos do Brasil parece não ter fim. A inocência dos filhos do entregador em perguntar quando o pai retornará, demonstra que somos um país tão infantil quanto nossas crianças, escapando dessa meninice os que tomam conta do poder, seja o legítimo quanto o de dentro de cadeias.
O absurdo chega ao ponto de termos que aguentar um ser vil e asqueroso ligar para a mãe dizendo para ela não pegar o ônibus, pois haveria uma chacina. Anunciada, é claro, antes mesmo de o facínora jogar combustível no veículo.
Talvez a cegueira momentânea por causa daquela imagem me deixe assim, sem saber diferenciar bestialidade ou imbecilidade e, assim, me vejo à procura de significados no dicionário.
Bestiais são esses elementos que constituem uma corja que vivem às nossas custas. Imbecis somos nós, se repetirmos os mesmos votos, as mesmas ações, o mesmo bradado momentâneo.
Acorda, Brasil! De novo!

Internet: Marco Civil precisa de urgência em 2014, por Karina Pinto

Sem conhecimento sobre o direito de imagem e os limites da liberdade de imprensa (há limites sim, que incluem ética profissional), curiosos saem munidos de celulares com câmeras potentes e registram todo tipo de situações

Internet: Marco Civil precisa de urgência em 2014

Vendo as postagens de fim de ano nas redes sociais, me deparei com imagens chocantes, cenas de violação dos direitos humanos e de total desrespeito ao direito de imagem e resguardo da família. Pessoas vítimadas pela violência que se espalha como praga em lavoura, em todo o país, e vitimas da insanidade de pessoas que se enxergam como news reporters, através do jornalismo colaborativo, o open source.
Sem conhecimento sobre o direito de imagem e os limites da liberdade de imprensa (há limites sim, que incluem ética profissional), curiosos saem munidos de celulares com câmeras potentes e registram todo tipo de situações. Algumas colaboram com a produção jornalistica de veículos de imprensa de forma séria, outros, focam-se em qualquer tipo de fato, indo desde a vida pessoal, com flagrantes indiscretos, até a imagem chocante de um corpo ensanguentado, ainda preservando o olhar de desespero do momento de sua morte.
Sem uma decisão enfática do governo brasileiro sobre o Marco Civil da internet, as telas de computadores e celulares conectados se transformaram em verdadeiras armadilhas. São fofocas, fotos reveladoras e indiscretas, imagens obscenas, e cenas desnecessárias da realidade cruel que assola o país. Sem controle de fato, a web está de portas abertas, sendo livre para qualquer pessoa, com qualquer idade. Não há limites para a criatividade e a vontade de mostrar serviço no open source, um prejuízo para o jornalismo, que parece se pautar cada vez mais pela violência, deixando de lado a informação, sua essência nata.
Perde também a rede mundial de computadores. Nessa batalha entre o que é notícias e o que pode ser noticiado, o espaço criado para aproximar, afasta quem precisa e respeita limites, e aproxima grupos cada vez mais interessados no submundo, onde o que importa é mostrar, doa a quem doer. Sem o marco civil, a internet caminha lentamente para um desgaste natural, onde o descontrole de usuários é o principal responsável. Mesmo com boa intenção, apesar de não se acreditar haver boa intenção em mostrar uma vitima ensanguentada, decapitada, news reporters ofuscam o verdadeiro jornalismo, ofendem usuários que buscam informação e entretenimento, e ferem direitos cruciais.
Em 2013 a justiça ordenou que a ferramenta de busca do Google bloqueie acesso a imagens de crianças ligadas ao tema pedofilia. Também em 2013, o Facebook foi orientado a bloquear imagens fortes que fizessem associação a crimes, como os vídeos que mostravam homens sendo decapitados em punição a crimes cometidos em um país na África. Quem caminha pelo mundo online, precisa saber, há sim punição para quem não respeita limites. Em dezembro de 2013, um jovem foi condenado a indenizar ma menina, depois de criar uma comunidade no Orkut para ofendê-la. A piada custou caro.
Ao mesmo tempo, Youtube e outros portais conhecidos sofreram ações semelhantes, mas apesar da “preocupação” da justiça, ainda não há uma legislação específica para punir e coibir crimes cibernéticos, dependendo ainda da justiça comum. O que não quer dizer que a impunidade seja a marca da internet. Como fotos e imagens ofensivas, ações penais se multiplicam ano a ano. Apesar disso, grande parte das vítimas ainda seguem desassistidas, como a jovem que cometeu suicídio após ter imagens íntimas propagadas na internet.
Quem pode pagar, como a atriz Carolina Dieckmann, se defende, e vê no interesse e conhecimento de seus advogados, que há sim punição para crimes cometidos na web. Quem não tem o mesmo “poder”, descobre pelo Facebook, que um membro da família foi assassinado, sem direito a um ombro amigo e com a imagem do olhar desesperado da vítima, em fotos para quem quiser e tiver estomago para ver.