Uma ideia nunca morre

Resolvi esperar a decisão do terceiro lugar para terminar esse texto, começado depois da partida entre Brasil e Chile, decidida nos pênaltis.
Alguém me perguntou porque se chorava tanto naquela decisão, assim como milhares de brasileiros país afora. Eu fui piegas também e quase deixei as lágrimas escorrerem enquanto parecia ouvir “sou brasileiro, com muito orgulho”. Era um ato de amor à pátria. A mesma que fiz questão em não servir quando do serviço militar obrigatório.
Li recentemente um texto que me fez refletir bastante sobre esse assunto: patriotismo. Lógico que não vou discorrer sobre o mesmo tema e sob o mesmo prisma.
Ri bastante do que vi nas redes sociais, com postagens e montagens em relação à seleção brasileira de futebol. Compartilhei e até criei algumas também. Na mesma hora em que alguém chorava ou ria pela “humilhação histórica” da “canarinho”, tantos outros choravam de fome ou pela morte de alguém querido, seja pela violência desenfreada ou por doença. Outros riam em suas mansões embalados por músicas de letras estúpidas, embalados pelas bebidas alcoólicas e, quem sabe, outras drogas.
O futebol, como tantos outros espetáculos, visa a arrecadação, admiração, ostentação (ou não). A Copa do Mundo, desde quando foi anunciada que seria no país com uma “linda” história esportiva na categoria, foi criticada. Então, futebol também é crítica.
Em junho do ano passado, milhares de brasileiros foram às ruas cobrar mudanças políticas e sociais e não somente “tarifa” mais em conta no transporte urbano. Passados aqueles dias de turbulência pacífica e, também, vandalismos, chegou o grande dia.
De novo, mais reclamações. Abertura sem pompa e hospitais sem medicamentos ou médicos. Faltou animação assim como falta educação de qualidade em milhares de municípios. Mas as duas últimas observações não vemos com tanta veemência na internet. Nas ruas, só em casos esporádicos. Como a própria copa, realizada a cada quatro anos. Período que nos remete à mudança do poder executivo federal.
Procurar explicações sobre a atuação de 23 jogadores e uma comissão técnica é como procurar agulha em um palheiro. O trabalho continua de qualquer jeito. Para mim, para eles, para você. As vitórias passadas são esquecidas na mesma velocidade em que se ignora a existência de pessoas necessitadas, atropeladas, violentadas, ensanguentadas. Crianças, jovens, adultos, homens, mulheres, do Acre ao Rio Grande do Sul.
Ficamos em um amor ufanista tão embasbacado por uma camisa amarela que não sentimos o mesmo amor fraterno por quem sofre diariamente a dura realidade da vida de quem não é jogador de futebol ou outra celebridade.
Torci sim pelo Brasil, aquele em que algumas pessoas escolhem outras para representar toda uma nação em um torneio milionário, de obras faraônicas e superfaturadas. Não só aqui, mas também na África, Alemanha e por quê não, na Rússia?
Somos o quarto lugar de uma disputa em que 32 países escolheram seus representantes, quase que “guerreiros” que satisfazem a alma ou o orgulho de uma nação que, nem sempre, não olha para si mesmo.
A publicidade tentou imortalizar um jargão em que se pedia que os jogadores jogassem para as crianças, mas não lembra de que as crianças precisam mais que um título de futebol. A alegria momentânea da conquista do primeiro lugar é rapidamente substituída por um presente.
Fatores psicológicos e, de novo, socioeconômicos, resultam em frustração ou contentamento. Quando tivermos a sensibilidade – me disseram que ninguém conscientiza ninguém – de entender que a vida segue em frente, de que o saldo diminui ou aumenta proporcionalmente ao seu suor no trabalho ou comemorações festivas, de que cada um de nós somos campeões em nosso dia-a-dia, entenderemos que vale mais chorar por estar vivo, com todos os defeitos, imperfeições, falhas e erros. Que mais compensa saber que somos únicos, queridos por quem nos é próximo ou não, que somos todos responsáveis por nossos atos.
Creio que tudo isso coloca em xeque chorar por placares elásticos ou esperar por mais quatro anos. A hora é agora e não depois que a bola passar, alguém levantar um troféu ou as luzes se apagarem. Sem pieguice.
Se nos faltam melhorias na saúde e educação e sobra corrupção em tantos setores, vamos começar a olhar para dentro de si e não para dentro de quatro linhas.
Os verdadeiros campeões são aqueles que lutam pelo que acreditam e não pelo que recebem. Uma ideia, ouvi em um filme, nunca morre.
Bola pra frente, Brasil!

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