Lágrimas para quem?

Foto: Reprodução (Internet)
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Ontem, independente de há quanto tempo, chorei.
Foi quando vi que não teria mais a presença de alguém especial da minha família. Chorei ao me despedir de minha avó.
Também chorei quando soube que uma grande amiga, estava doente e com o tempo de sua missão terrena diminuindo por causa de uma doença. Chorei por não poder me despedir, mas ainda a vi pouco antes do derradeiro momento.
Outros choros aconteceram quando fui traído e quando fui o traidor.
Como o trecho de um poema que diz “o amaríssimo travor do seu dulçor”, todos foram lamentos por pessoas que conheci e que, de alguma forma, me tornaram o que sou.
Adolescentes e muitos adultos choram quando perdem um ente queridos. Tantos casais caem em pranto após uma separação. Doenças terminais ainda nos afogam em rios salgados.
É a ordem natural da vida a gente enterrar alguém mais velho, seja pai, mãe ou avó. Um rompimento amoroso dói até quando a gente queira que machuque. Um leito de hospital não precisa ser só de angústia.
Como explicar então esse lacrimejar por alguém que nunca vi e nem sabia da existência e que me comprimiu a garganta com o atar de um nó imaginário?
Os recentes vídeos em que o menino Bernardo, caso que abalou – como tantos outros – o país, aparece em uma discussão com o pai e a madrasta, nem se compara ao roteiro de filme de terror. Entretanto, foi tudo real.
Como uma psicóloga buscou explicar, o garoto não morreu só quando foi assassinado, mas morria lentamente todos os dias, com as atitudes desumanas de quem deveria somente amá-lo e cuidar de sua frágil saúde.
No caso Bernardo, o pior foi saber que os responsáveis envolvidos e acusados são da família. Alguns acusam também a justiça que não atendeu o pedido desesperado da criança.
As palavras fortes sempre valem muito mais do que imagens.
Assim, ontem, como em tantos outros dias, meses e anos atrás, eu chorei.

Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme.
Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um teu amigo, ou o teu próprio.
A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido;
por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

(John Donne, 1624)

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