A triste realidade do racismo

“Dizei-me vós, Senhor Deus, se eu deliro ou se é verdade tanto horror perante os céus?!”.
O trecho do poema Navio Negreiro, um marco na história do romantismo brasileiro e escrito por Castro Alves, o “poeta dos escravos”, parece se encaixar perfeitamente ao que temos diariamente estampado em jornais e noticiários televisivos.
Não me refiro às monstruosidades cometidas contra quem foi assassinado ou torturado por motivos fúteis ou torpes, mas sim ao preconceito estampado em ações cotidianas que passaram a ser rotineiras: o racismo, em todas as formas.
Um caso que se tornou emblemático envolve o esporte preferido por milhares de brasileiros e, trazido por um branco inglês, sempre teve na categoria étnico-racial negra seus principais expoentes.
Uma jovem, branca e torcedora gremista, foi flagrada por câmeras de TV gritando a palavra macaco ao goleiro do time adversário. Anteriormente, um jogador brasileiro teve que comer, literalmente, uma banana jogada pela torcida rival.
Em 2012, uma atleta grega fez uma piada considerada racista e acabou expulsa da Olímpiada daquele ano. Agora, um dos clubes mais tradicionais do país foi eliminado de uma competição nacional e a moça branca perdeu o emprego e teve a casa atacada.
Se tirarmos o foco esportivo e voltarmos para o dia-a-dia em escolas ou ruas, a situação também é a mesma. Talvez a própria mídia seja culpada, pois um estudo recente comprovou que páginas de revistas voltadas ao público infanto-juvenil quase não tem foto de negras. Vale ressaltar que somos um país em que mais de 50% das meninas de 10 a 19 se declaram pretas ou pardas, é coragem alguém ainda insistir em tamanha babaquice e xingar o outro de macaco ou outras palavras com cunho ofensivo.
negro1Aqui em Altamira, no sudoeste paraense, uma acadêmica é a vítima da vez e, graças às mídias sociais, vem recebendo o apoio e carinho de amigos e desconhecidos.
Para completar a discussão, um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) afirmar que o racismo aqui é “estrutural e institucionalizado” e que parte dos brasileiros “negam a existência do racismo”. Talvez a pessoa que fez o comentário agressivo sobre a estudante da UFPa concorde e diga que foi só liberdade de expressão e não acredita que somos um país miscigenado racialmente.
A educação, nesse contexto, poderia ser a propulsora de mudanças, entretanto, ela mesma é fonte para discriminadores surgirem e outros saírem em defesa étnica.
Enquanto se fala mal dos outros e pelo que temos visto por aí, talvez já possamos responder ao clamor de Castro Alves há 145 anos. Não é fantasia e sim, realidade.

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