#EstuproNãoÉCulpaDaVítima

a_atriz_giselle_batista_em_seu_perfil_no_instagram.jpgPiauí. 2015. Quatro jovens abusadas sexualmente e jogadas de um penhasco de 10 metros de altura. Uma morreu.
Piauí. 2016. Adolescente de 17 anos é violentada por cinco covardes (me recuso a chama-los de homens), sendo quatro menores.
Rio de Janeiro. Vinte de maio de 2016. Trinta e três monstros e uma garota de 16 anos.
_ Fala, Zezão.
_ E aí, Martelo?
_ Cara, viu o vídeo do caso da menina ‘estrupada’?
_ Vi, meu. Doido, né? Os caras abusaram da mina na ‘maió’ cara de pau.
_ Ela vacilou, deve ‘tê’ dado mole.
Não importa. Índia, Brasil, Japão, Estados Unidos. Pará, Piauí, Rio de Janeiro.
Não existe local. Não existe fronteira. Não existe explicação. Não importa.
Não existe, no estupro, base para a vitimologia.
Trinta monstros de várias idades. Filhos da violência? Criaturas nascidas de chocadeiras porque não parecem gerados por uma mulher. Não devem ter mãe. Nunca tiveram.
Parecem ver a mulher como depósito e objeto de sua lascívia imoral e animalesca.
Em tempos de rápida divulgação, um colocou o vídeo e debochou da vítima. Outros seguem o mesmo comportamento idiota.
_ Caramba, Jão. Você viu o vídeo?
_ Da adolescente abusada sexualmente? Não e nem quero ver.
_ É. Poderia ter sido uma das nossas irmãs, mãe ou parente. Uma amiga que fosse.
_ A canalhice desses bandidos parece não ter limite. Filmaram, fizeram piadinha.
_ É. Cadeia neles. Pena que não, né? Nossa legislação…
Não importa. Um vídeo chocante de 40 segundos. Michel, que postou o vídeo, é só a ponta do iceberg. Muitos outros não enxergam o sexo oposto como seres que nem eles, com direitos e deveres.
_ Menina, tu vai sair com essa roupa?
_ Vou, prima. Tá legal?
_ Hum… Tá ‘provocativa’ demais. Tu vai arrasar.
_ E eu não sei?
Não importa a roupa. Não justifica. Elas não estão vestidas portando um cartaz: “abuse”.
Em Altamira, Evelyn só tinha nove anos e, mesmo assim, foi violentada e jogada em um terreno baldio.
Muitas outras não entram na estatística da segurança pública.
Segundo dados de 2014, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no país.
“Não foram 30 contra uma. Foram 30 contra todas”.
#EstuproNãoÉCulpaDaVítima

Anúncios

De volta pro aconchego

DSCF9802 copiar.jpgAh, que saudades sentia da minha bela morena com aroma de manga, tucupi e açaí. Do beijo doce de cupuaçu, do tremor do jambu e do calor que nos abraçava antes da chuva refrescante.
Como sentia falta das conversas com ela sob os túneis feitos por imponentes mangueiras centenárias e dos amigos da infância.
aventura.jpgÀs vezes, atravessava 800 quilômetros para estar perto dela, enfrentando areia, lama, poeira, sol, chuva, atoleiros, boiadas, pontes caídas, balsas improvisadas e outros tipos de intempéries.
A deixei há quase uma década, depois de ter conhecido outras pessoas, me tornado pai e ter feito parte de uma grande obra e, agora, trabalhar numa empresa bicentenária.
São nove anos de caso com uma linda princesinha que vive às margens do Rio Xingu.
DSCF9873.jpgAté conheci outra, linda, às margens do Atlântico, no local em que o sol nasce primeiro em toda a América.
Só não houve oportunidade de ficarmos juntos. Por enquanto.
Agora, uma parte de mim vai ficar para trás. Também momentaneamente.
Estou de volta. Estarei a cada dia buscando qualificação e crescimento profissional. Sei que dará tudo certo.
Quem disse que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar? A expressão, clichê, serviu para mim.
Depois de desistir do chamado dela há menos de oito meses, não resisti e fui atrás. Ela me aceitou de novo.
Sim, estou de volta.

O vestido de festa

A professora chega à sala de aula. Na escola, festinha (atrasada) em homenagem às mães.
Triste, uma aluna fica encolhida e toda desconfiada no canto da sala, numa cadeirinha velha e a mesa não muito diferente.
_ O que você tem, meu anjo? – questiona a “tia”.
Nada. Nenhuma resposta. Só um fio de lágrima que começa a escorrer pelo rostinho da menina.
_ Meu Deus, Sofia*, que foi?
_ Todo mundo veio com roupa de festa e eu vim de uniforme – soluça a criança – Papai esqueceu de me arrumar com roupa de festa.
Nisso, ela observa as outras pequeninhas todas de vestidinhos.
_ Não ligue pra isso – pede a educadora.
_ É que eu não tenho nenhum vestido pra festa – lamenta.
_ Mas sua mãe vem, não vem? Ela vai ficar triste se ver você assim – lembra a encorajadora professora.
_ Ela não vem. Ela ‘tá’ trabalhando. Por isso que o papai me traz.
E o fio de lágrima daquele anjo vira uma cachoeira.

crianca-triste-fobia-escolar-59773Educação sem conforto, mãe ausente porque trabalha, pai esquecido ou a falta do vestido.
Não sei o que me dói mais. A soma de tudo isso ou o esforço de uma professora que ama sua profissão e ficou sensível à história.
Não fosse o abraço carinhoso e o colo aquecido para silenciar o choro de outras Sofias, eu também teria chorado.

* Nome fictício. O relato? Não.

Ligou ou não ligou?

waiting-room-best-practices-670x300.jpgCedo. Fila. Você com dor na coluna aguardando ser chamada.
_ Bom dia! – diz a atendente.
_ Bom dia. Gostaria de fazer esse exame.
_ Senhora, temos que pedir autorização ao convênio. Caso seja autorizado, ligaremos para a senhora. – informa.
Espera-se a manhã toda. Dezesseis horas da tarde e nada. Você retorna ao local.
_ Oi, boa tarde. Queria saber se já foi autorizado meu exame porque até agora ninguém daqui me ligou.

Silêncio. Corre-corre. Abre-se uma gaveta. Você aguardando uma resposta.
Em seguida, meio que desconcertada, outra atendente responde sem lhe olhar.
_ A outra moça não autorizou.
_ Como assim? Ela não ligou?
_ Não, não autorizou.
_ Quem? O convênio?
_ Não, a moça.
_ Do convênio? Ou a daqui não ligou – esbraveja a já impaciente.
Mais silêncio.
_ Ela ligou ou não ligou? – questiona mais uma vez, indignada.
_ Senhora, ela não autorizou porque não daria pra fazer hoje.
_ Então nem ligou?
_ Minuto que vou ligar pedindo autorização.
_ Então agora vai dar pra fazer?
Alguns minutos depois…
_ Foi autorizado.
_ E posso fazer hoje?
_ Sim. A senhora já vai ser chamada.
Exame feito e resultado para a próxima semana.
_ “A f.d.p. não ligou. Só pode” – pensa a agora totalmente irritada paciente.

A cena quase que de comédia aconteceu agora pouco com minha esposa num conhecido espaço de diagnóstico por imagem aqui em Altamira.
Sabe a sensação de que a primeira atendente não ligou por esquecimento? Pois é. Estamos com ela até agora.
Infelizmente, a vergonha de assumir que uma colega de trabalho falhou foi maior e, talvez por isso, o comportamento vexatório e as desculpas sem fundamento das atendentes.
Típico em vários locais aqui na cidade. Despreparo de atendentes ou má gestão dos administradores?

Agora vai? #BaixaAzul ou #VoltaGol

DSCF9799.jpgMPF aponta abusividade em aumento de preços de passagens aéreas entre Altamira e Belém
Aumento ocorreu imediatamente após a Gol se retirar da rota entre a cidade no Xingu e a capital paraense. Passagens saltaram de R$ 136 para R$ 1.129

O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou nesta quarta-feira, 4 de maio, ação contra a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e as empresas Azul e Map Linhas Aéreas pela prática de preços abusivos nas passagens entre Altamira e Belém. As passagens foram reajustadas em até 500% nesse trecho logo após que a Gol Linhas Aéreas se retirou da rota. Para o MPF, o reajuste representa aumento arbitrário de lucros, já que não há como alegar aumento de custos operacionais em tão pouco tempo.

“Resta evidente o abuso cometido pelas rés Azul e Map, consistente na arbitrariedade dos aumentos dos preços, pois como se justifica num mês (fevereiro) o trecho Altamira–Belém custar R$ 136,90 (tarifa promocional) e noutro mês (abril) o mesmo trecho sair por quase R$ 1.129,90 (tarifa promocional)”, relata a ação.

O MPF alega que o aumento significa, na prática, isolar a cidade de Altamira e destaca que “o aeroporto de Altamira ocupa uma posição importante no sistema de transporte regional, tendo em vista que liga não só o referido município, mas também diversas cidades vizinhas à capital do Estado e a outras cidades do Brasil. Some-se a isso as peculiaridades regionais no que se refere a péssima qualidade da malha rodoviária, principalmente durante o período de chuvas”.

Outra evidência do abuso é o fato de que um trecho quase da mesma distância, entre Belém e Marabá, no mesmo período, é vendido pela Azul por R$ 200. Saindo de Altamira, a viagem aérea que tem a mesma duração, de uma hora, é vendida pela Azul por R$ 500. O MPF sustenta que, por se tratar de atividade comercial com função social evidente e se constituir em serviço público federal, a aviação civil está sujeita a controle por parte da Justiça.

“O MPF entende que um aumento razoável é normal no mercado, mas o presente caso é abuso de direito”, afirma a procuradora da República autora da ação, Cynthia Arcoverde Ribeiro Pessoa.

Além dos dispositivos do Código de Defesa do Consumidor, a própria Constituição Federal determina repressão sobre o abuso de poder econômico que vise à dominação dos mercados, à eliminação da concorrência e ao aumento arbitrário dos lucros. Para o MPF,  ao fixar os preços das referidas passagens aéreas de maneira muito mais elevada após a saída da Gol de Altamira, as Azul e a Map “impõem condição excessivamente onerosa ao mercado de consumo, valendo-se de suas posições dominantes no município e região, o que caracteriza, certamente, abuso do poder econômico”.

O MPF pediu à Justiça que obrigue as companhias aéreas a limitar o reajuste de preços à média dos valores das passagens praticados para esse trecho em 2015, somada à variação da inflação no período e um adicional máximo de 20%. Os novos preços, indica o MPF, devem permanecer em vigor até que a Anac apresente estudos indicando critérios razoáveis para o reajuste de preços das passagens aéreas em Altamira.

A ação pede ainda que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) seja notificado sobre o processo para, se necessário, intervir na situação.

Processo nº 0000736-22.2016.4.01.3903 – Vara Única da Justiça Federal em Altamira (PA)
Íntegra da ação:
http://www.mpf.mp.br/pa/sala-de-imprensa/documentos/2016/acao-do-mpf-por-abuso-de-poder-economico-contra-as-empresas-azul-e-map-em-altamira-pa/
Acompanhamento processual:
http://processual.trf1.jus.br/consultaProcessual/processo.php?proc=00007362220164013903&secao=ATM