Indescritível

Sabem a criança quando vê o último brigadeiro na mesa de aniversário?
O goleiro que defende o último pênalti na final de uma grande competição e se torna campeão?
O piloto que chega à Fórmula 1 e vence sua primeira prova?
O aluno de Direito que passa na primeira tentativa na prova da OAB?
A mãe quando vê seu filho no colo pela primeira vez, ainda na sala de parto?
O repórter de emissora municipal quando consegue emplacar reportagem nacionalmente?
O universitário que recebe seu diploma?
O analfabeto que consegue juntar as primeiras letras?
O desempregado que consegue um trabalho depois de meses na fila de emprego?
O fiel que acompanha o Círio e consegue tocar na corda?
O funcionário que consegue na sua empresa um espaço para ver a berlinda passar e registrar fotograficamente cada momento?
Pois é…
Essa mesma emoção eu senti hoje quando vi pela primeira vez os romeiros que caminham em grupos de dezenas de pessoas, vindo de várias cidades, para Belém.
Não tem como definir os passos, alguns longos, outros curtos, muitos cansados.
Não tem como descrever a expressão no rosto de cada um.
Só sentir.
E segurar (ou não) as lágrimas.

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Gente inocente vai pro céu

Aqui em Altamira, a barbárie tomou conta tem um tempo.
Infelizmente, ainda tem gente que compartilha as fotos no intuito de alimentar a fome mórbida de pessoas que desconhecem que isso é falta de respeito à memória do morto e da família. Mesma situação quando se tem casos de suicídio.
Uns afirmam que se você não gosta, é só não ver as fotos. Engodo para aumento de audiência, compartilhamento, “curtidas”.
Ainda não sei se já estão circulando fotos do caso monstruoso e que não será esquecido jamais em Janaúba, em Minas Gerais. Mais que a população, os pais nunca irão encontrar razão para segurar as lágrimas quando lembrarem que perderam seus filhos.
O nome da creche resume tudo: gente inocente.
Crianças de quatro anos mortas. Segundo assessoria do hospital municipal, outras 14 com mais de 20% do corpinho queimado.
Vi a reportagem. Mochilas no chão.
Impossível segurar o nó que se forma na garganta e os olhos lacrimejantes, vertendo em pequenas lágrimas.
O vigia de gente inocente foi o responsável. Ninguém ainda sabe o motivo do ato insano.
De novo, não adianta buscar montar esse quebra-cabeça macabro e apontar culpados.
Isso me fez lembrar do menino Bernardo, da Isabella Nardoni, Raquel Genofre, Evelyn Nicole e do desaparecimento do Natan. Todos inocentes. Alguns ainda permanecem como crimes que não foram desvendados.
“Gente inocente morre e vai pro céu”, acreditam alguns religiosos.
Pra outros, nunca sairão de dentro d’alma e do coração.

#PrayForAltamira

Sempre em casos de grande repercussão de violência, como o maior atentado “doméstico” em território norte-americano, se posta #PrayForOrlando, #PrayForParis ou #PrayForLasVegas, por exemplo.
Não é desprezando as mortes dos que foram vítimas de atos insanos, monstruosos e covardes, mas ao olharmos para nosso umbigo, nosso quintal, também vivemos em tempos de guerra em Altamira.
Ch(oram) as mães, (ch)oram os filhos, choram os amigos.
Questionar sobre políticas públicas, seja de qualquer esfera, não irá trazer ninguém de volta, mas pode reduzir drasticamente essa triste realidade que assola Altamira.
Aparelhar as forças de segurança pública sem uma justa remuneração tampouco.
Enquanto isso, famílias são destroçadas.
Dados já bastante divulgados afirmam que o município é a cidade mais violenta do país quando analisados os casos de homicídios em relação ao número de habitantes. Em 2015, a taxa era de 107 por 100 mil habitantes.
Os altamirenses viram em pouco mais de 48 horas, dez pessoas serem assassinadas.
No “hell de janeiro”, como foi ilustrado em uma revista, o Exército foi acionado.
Aqui, no nosso Pará, recentemente o Ministério da Justiça autorizou a atuação da Força Nacional de Segurança Pública, a pedido do governo estadual. Somente para verificar as situações de presídios, após megaoperação de varredura e monitoramento dos presídios.
De novo, não importa se existem ou não políticas públicas, dinheiro para viaturas, salários maiores, armamento pesado ou policiamento ostensivo.
Nada trará quem teve a vida ceifada. Seja a vítima, seja quem fica.
Reclamar, caminhar, protestar… Idem.
Nada parece sensibilizar os que estão lá “mais em cima”, na posição de determinar, cumprir, legislar. Só atendem aos próprios interesses ou defendem a si mesmos, seja de maneira transparente e cínica ou sordidamente às escondidas, em tramas palacianas.
Aqui só fica a curiosidade em saber quantas vezes apareceria nas timeslines das maiores redes sociais, como o Facebook e o Twitter, a hashtag #PrayForAltamira ou em bom português, #OremPorAltamira
#PrayForAltamira

Já usei essa citação em outro texto, mas não vejo perder sua atemporalidade…

Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme.
Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um teu amigo, ou o teu próprio.
A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido;
por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

(John Donne, 1624)

Viva a nova MPB! #sqn

maxresdefault.jpg“Fiz essa letra pra te incentivar
Mas se você mudar vai fazer falta
Se teu hobby é sentar, não vou te criticar, tá de parabéns (parabéns…)
Mas preciso de você pro role valer, então senta bem (senta bem…)
Oah!
Então sarra, então sarra a bunda no chão
Então sarra, então sarra o popozão
Meu Deus
Me fala quem colocou essa coisa no mundo
Foi planejada de um jeito que para com tudo
A circunferência perfeita que tem o poder
Na medida certa pra te enlouquecer
Ela encaixa
Com esse grave do beat
Ela encaixa
Com o cavaco e o pandeiro
Ela encaixa
Quando essa bunda
Começa a jogar
Perfeitamente
Ela encaixa
Óbvio, cada letra em rap é um código sórdido
Psicografado som sólido, súbito
Sou problemático, um pouco ciumento
Mas você sabe que eu sou foda na cama
Por isso que me ama
Vai com o bumbum, tam tam
Vem com o bumbum, tam tam tam”

Trecho de letras de músicas listadas como as 20 mais tocadas no Brasil segundo aplicativo de streaming.
O que dizer?

Recordação de tragédia anunciada

aylan2.jpgQuem recorda da foto de um menino sírio morto numa praia da Turquia?
A fotografia foi comentada, retuitada e apontada como representativa da gravidade da situação que assola aquela região e envolve questões políticas, econômicas e migratórias.
A tragédia do naufrágio no Rio Xingu, próximo ao município de Porto de Moz, no sudoeste do Estado, me fez lembrar aquela imagem.
Hoje, em um aplicativo de mensagens, recebi a foto de uma criança morta, carregada por um homem, dentro de um barco que ajudou no resgate dos corpos.
Outro anjo que nos permite questionar por quanto tempo mais teremos que aguentar, em silêncio, o descaso, a omissão, a falta de fiscalização de nossos rios.
Mais do que isso, o desrespeito por nossa região xinguana.
Não nasci aqui, mas fui acolhido há pouco mais de doze anos por “essas bandas”.
Apesar da dor e angústia de olhar aquele pequeninho no colo de alguém, busquemos fazer com que ele e, principalmente a sensação que a foto nos desperta, seja emblemática para cobrarmos melhorias.
Olhai por nós, governantes!
#XinguEmLuto

#XinguEmLuto

img_2015.jpgJá vimos esse filme antes.
Omissão do Estado, ganância de empresas, superlotação. Ou nada disso?
Fatalidade? A maior tragédia em três décadas.
Porto de Moz em pranto.
Tantas famílias em desencontros e encontros.
Xingu de suas límpidas águas agora vê níveas lágrimas correr rio adentro.
Pronto. Culpar quem? Estado? Comandante? Tripulação? Tempo?
De nada adianta apontar porque muitos não irão aportar com o sorriso, com o abraço, com vida.
Impunidade permanecerá permeando por todo canto.
E em todo canto, não só no porto, mais pranto. Como acalentar?
Pelo alívio, pelo lamento.
Xingu em luto. Enlutados, todos nós.

La La Land

A primeira cena de La La Land: Cantando Estações, filme dirigido e escrito por Damien Chazelle, com a música Another Day of Sun, já nos deixa dentro do clima no qual o longa acontece. Esse é um musical sobre pessoas que chegam à cidade de Los Angeles, meca do cinema norte-americano, em busca da oportunidade…

via La La Land: Cantando Estações — :: Cinéfila por Natureza ::

O monstro: sobre a chacina de Campinas, misoginia e notícias

Blog da Boitempo

daniela-lima-boitempo-campinas Adrian Ghenie. “Pie Fight Study 2”, 2008.

Por Daniela Lima.

Quando um caso de violência contra mulheres chega à grande imprensa, o debate é orientado quase sempre pela mesma pergunta: qual a motivação do crime? Mas o que é que motiva a formulação dessa pergunta? Deixando de lado o procedimento jurídico que levará em consideração as motivações do crime dentro de um protocolo de investigação policial, o senso-comum e os consumidores de notícias em geral desejam encontrar  uma explicação individual, específica e subjetiva. E a pergunta pela motivação do crime atende a essa necessidade. Muitos dizem: “era louco”, “era um monstro”, “não era humano”.

Quando se diz que alguém que assassina brutalmente uma mulher o fez simplesmente porque era “louco” se reforça o estigma do louco perigoso e, ao mesmo tempo, se isenta o assassino de responsabilidade. É uma forma de dizer: “ele não sabia o que estava fazendo”…

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#ForçaChape

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Fonte: Uol Esporte

Chuva com choro, choro na chuva.
Condá, com dor, não dá.
Dá, como o condor almeja o ar,
Mas com dor, não irá mais voar.
Viajar, já não dá.
Só lembrar da dor em Condá, não dá.
Dá vontade de chorar na chuva.
Cada um será sempre vencedor.
Mesmo na dor, o humor, o vigor e o esplendor prevalecerá.
Chapecó chora. Ora. Em Condá. Com dor. Com amor.
Amor acolhedor que historiador, com ardor, relatará. Sem choro. Oro.
Time de ouro. Chuva com choro.
#ForçaChape

Gotas de chuva caindo do céu
Jamais conseguiriam tirar o meu sofrimento
Desde que não estamos juntos
Rezo para que o tempo tempestuoso
Esconda estas lágrimas que espero que você nunca veja
(Trecho traduzido da música Crying In The Rain, A-Ha)

Unhas

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Fonte: Santta Tendência

As duas vinham tranquilamente conversando dentro do ônibus. As demais pessoas tentavam dormir. A longa viagem de quase 18 horas ainda estava pela metade, mas o bate-papo não teve como não chamar a atenção.
_ Então, menina, nem tinha reparado no tamanho das tuas unhas. Como tu consegue isso? – perguntou a morena.
_ Simples. Não faço nada em casa. Não lavo louças, não enxugo, não varro, não passo. Nem minhas calcinhas mesmo eu cuido. Quem cuida de tudo é minha mãe, claro. – disse, orgulhosamente, a loira platinada.
_ E como tu faz pra conseguir manter elas? São tão lindas. – indagou a outra.
_ Ah, quando eu quero dinheiro rápido vou na casa da minha avó. Faço qualquer coisa por lá e ela me dá. A mãe nem pode saber disso.
Ambas começaram a rir alto, acordando os que ainda tentavam dormir.
_ E o que tu faz da vida?
_ Sou dançarina de uma banda de melody. Os cantores vão de avião, mas eu e a equipe de produção temos que vir de busão mesmo. O pessoal não gostam, mas…
A conversa foi interrompida. A garota colocou o fone de ouvido e continuou a ouvir o seu batidão.